Hoje escrevo diretamente, com destinatários certos, para os sportinguistas. Vai ser longo e creio que os não-sportinguistas não estarão interessados e não passam dos primeiros parágrafos.
O que se passou ontem em Alvalade foi vergonhoso.
Aliás, a forma como a equipa se tem vindo a exibir é penosa.
Estar, no início da segunda volta, a 11 pontos do primeiro, a oito e sete dos segundo e terceiro, respectivamente, é uma catástrofe para o futebol do Sporting. A luta por um lugar na Champions, cada vez mais fundamental, é neste momento uma miragem.
Podemos exigir cabeças, sai o Keizer, que leve o Varandas, os jogadores não prestam…
Ontem, relativamente a Keizer, quando vi que se preparava para fazer entrar Petrovic e depois voltou atrás, fiquei com uma ideia mais clara do que vale. Pouco, parece-me.
Relativamente aos jogadores, é verdade que falta muita qualidade neste plantel. Temos 4 ou 5 jogadores efectivamente bons. 4 ou 5. Não mais.
Quanto a Varandas, o maior problema na sua comunicação é estar a prevalecer cada vez mais entre os sportinguistas a opinião de que há uma enorme passividade em todas as áreas do clube (no futebol, na reestruturação financeira, na divulgação da auditoria forense, na área do marketing e merchandising, na pacificação do clube, etc.). Pode ser uma questão de estilo e, por contraste, até prefiro este estilo sossegado e sereno. Desde que haja trabalho de fundo na retaguarda. Haverá?
Mas desenganem-se os meus estimados consócios sportinguistas: o que atravessamos agora, é um legado de um longo processo de apagamento do futebol do Sporting. Para isso contribuiram vários factores.
Avultam, entre eles, dois: o “apito dourado”, primeiro, que falseou durante duas décadas a verdade desportiva (e o Sporting nunca teria estado 18 anos sem ser campeão se não fosse a batota, teria conquistado pelo menos dois ou três títulos nesse período) e, mais recentemente, as batoteiras “toupeiras”, que desvirtuaram a verdade desportiva durante os últimos 10 anos, pelo menos. Sem a batota, o Sporting também teria conquistado dois ou três tíitulos neste período e não atravessaria este jejum prolongado.
Mas olhar para fora e atribuir culpas a outros é o mais fácil. Ontem, também tivemos em Alvalade uma arbitragem vergonhoso daquele que dizem ser o “melhor árbitro português”, o que me dá uma enorme vontade de rir. Foi preciso o VAR, duas vezes, para o homem assinalar o que era óbvio e não se percebe porque não assinalou logo. Bendito VAR, e mais uma vez se percebe porque há quem queira acabar com ele.
Mas as razões para a humilhação de ontem não radicam em factores externos, nem foi a miserável arbitragem a responsável pela derrota. O Sporting perdeu por culpa própria. Porque não jogou um caracol. Porque a defesa foi uma comédia. Porque o meio-campo não fecha, é lento e tem enormes dificuldades em contruir. Porque o ponta-de-lança anda sozinho e desinspirado. Porque…
O problema não foi ontem. O problema não é desta época. O problema não é da gestão do Sousa Cintra. O problema não é Bruno de Carvalho, nem da “dinastia” anterior com que este rompeu.
O problema é o futebol do Sporting e a gestão da SAD e do Clube, de há várias décadas para cá.
Nos últimos 37 anos, o Sporting foi campeão duas vezes. Vou repetir outra vez, porque é impressionante: nos últimos 37 anos, o Sporting foi campeão duas vezes.
Sucessivas Direcções cheias de boa vontade, mas incompetentes, foram incapazes de transportar o futebol do Sporting e a gestão do Clube para o século XXI. Temos anos de atraso em relação aos nossos principais rivais.
Não temos estrutura digna desse nome no futebol.
Não temos influência nos orgãos do futebol, nem na comunicação social.
A nossa reputação anda pelas ruas da amargura.
O anterior presidente, cheio de voluntarismo, achou que tinha a solução. Torrou rios de dinheiro, como o Clube nunca tinha gasto. Comprou jogadores por atacado, paletes deles. Foi buscar, por um preço absurdo, aquele que todos diziam ser um enorme treinador, um campeão, inventor de campeões. Cortou com tudo e com todos. Virou sportinguistas contra sportinguistas, na ânsia de encontrar explicações também dentro de casa. Com isso, alienou e hipotecou parte daquele que é, hoje em dia, a par com o recuperado ecletismo, o único factor de grandeza do Sporting que encontra bases no presente e não no passado: os sportinguistas, a forma como vivem o Clube, sem nunca o abandonar. Chegámos a este ponto, imaginem, de até os sportinguistas serem postos em causa no Sporting e por sportinguistas.
Resta dizer que o anterior presidente, acreditando que tinha a receita secreta para vencer no futebol, que é a mola real do clube, fracassou em toda a linha. Com gastos como nunca, conquistou o quase nada de sempre. E pelo caminho, ainda conseguiu destruir uma equipa que estava a construir-se.
O problema do Sporting é a falta de competência e de profissionalismo. Já o é há muitos, muitos anos.
Varandas já fracassou? Não, ainda não. Creio que perdeu a aposta arriscada em Keizer, dificilmente acredito que a mão de “poker” não passe de um bluff.
Nas modalidades vamos bem (temos de ver como acaba) mas, no resto, não se vêem melhorias sensíveis, apenas um contraste assumido com o que havia.
Mas o futebol é o coração do Sporting. E está gravemente doente. É no futebol que se joga quase tudo o que o Sporting é.
Precisamos de competência. COMPETÊNCIA!
Esta época, apesar de ainda ter várias coisas em disputa, dá-nos pouca esperança.
A próxima será determinante para pereceber se Varandas consegue efectivamente dar ao Sporting aquilo de que o Sporting precisa.
Saudações Leoninas
André Serpa Soares

Deixe um comentário